sábado, 18 de outubro de 2014

Um sonho paulista



Qual não foi sua surpresa quando o ônibus quebrou em meio à marginal tempestuosa? Não bastasse a chuva também havia o fator tempo. Duas horas para que a ajuda chegasse, mais uma hora para que outro ônibus conseguisse chegar ali em meio ao trânsito, e já era 20h.

O calor que se formava dentro do veículo começou a fazer com que seus óculos embaçassem e então, o cachecol pareceu sufocá-la e as botas a esquentarem. Descruzou os braços e abriu a bolsa em busca do aparelho móvel que tanto amava.

Ao segundo toque foi atendida.

— Diga flor da minha noite! — Respondeu uma voz masculina.

— Ei, então... — Começou tentando encontrar a fala. — Fiquei ilhada dentro de um ônibus aqui na marginal... Que tal me encontrar no Café das 3 a.m? Depois você poderia me dar carona para a sua casa para assistirmos o filme que você quiser! — Respondeu cruzando os dedos.

O outro lado da linha ficou mudo por alguns longos segundos e a garota realmente achou que ele tivesse desligado quando foi respondida.

— Tudo bem, o que eu ganho com isso? — Ele perguntou sério.

— Como assim? — Ela questionou descrente.

— Angela, minha querida, você vai me tirar de casa em meio a essa chuva e trânsito para te buscar em um café a três bairros do meu. Eu quero saber: o que eu vou ganhar com isso? — Ele voltou a interpelar a deixando nervosa.

— Humn... Um café? — Perguntou rindo sem graça.

— Pense grande, Angelita! — Ele disse preguiçoso. Ela até podia visualizá-lo deitado em seu sofá com as pernas cruzadas para cima e enrolando o fio do telefone nos dedos enquanto encarava o teto.

— Eu te pago uma pizza família de frango com catupiry. — Ela disse o fazendo suspirar do outro lado.

— Eu detesto esse lance de você me conhecer tão bem! Faz com que todo o encanto da barganha seja muito simples para você! Eu deveria trabalhar com sexo daqui para frente. — Ele disse refletindo.

— Miguel! — Ela chamou ficando vermelha e ele só bufou do outro lado.

— Ok, ok! — Ele disse ficando em pé. — Chego em menos de uma hora.

Ela guardou o telefone pensando no tamanho atrevimento do rapaz e seguiu rumo à rua sentindo o frio cortante cruzar seu rosto e a água alcançar seus tornozelos. Choramingou contrariada.

Minhas botas novas!

Correu entre os carros fazendo com que sua roupa ficasse mais molhada e, ao chegar à calçada, já estava em estado deplorável.

Andou mais três quarteirões até alcançar o estabelecimento em tons de terra. Ao adentrar, o barulho irritante do sino chamou atenção para si. O atendente quando a viu torceu o nariz.

Considerou aquilo uma tremenda falta de respeito! Havia simpatizado muito mais com a garotinha que estava rindo dela e sorriu de volta.

Sentou-se em uma poltrona de couro fazendo um barulho escandaloso e quis se enterrar viva.

Uma moça chegou ao seu lado com um sorriso forçado ao notar seu cabelo pingando no tapete de camurça e sua roupa encharcada grudando no assento.

— Deseja alguma coisa, senhora? — Questionou com o batom vermelho desbotado.

Minha dignidade se ainda estiver por aí.

— Um chocolate quente com marshmallows. Muitos marshmallows. Eu pago pelos marshmallows extras. — Ela disse rápido e sorrindo amarelo. Tinha repetido tanto a mesma palavra que ela até se tornara engraçada.

A atendente se retirou pensando em como ela era louca e Angela pôde relaxar.

A chuva batia com força na vidraça da loja. Granizo. Aquelas pequenas pedrinhas de gelo deixavam o ar ainda mais frio e gostoso na concepção dela.

— Mamãe! O Ted não quer comer! — Uma menininha disse tentando que um pãozinho de queijo atravessasse a boca do ursinho de pelúcia em suas mãos.

— Por que o Ted não come, Amanda... Agora pare de brincar com a comida e me deixe pensar! — A mulher respondeu séria digitando rápido em sua calculadora.

— Sim, mamãe... — A menina respondeu cabisbaixa e Angela a encarou com pena.

Crianças querendo ser crianças e adultos sendo adultos. Aquilo a irritava. Colocar uma criança em uma rotina, com responsabilidades e dentro de um sistema racional desde jovem não era errôneo? Parte dela gritava que sim. Enquanto uma parte mais lógica e fria dizia que não.

Seu chocolate quente chegou. Agradeceu a mulher a sua frente e bebericou com cuidado. Fechou os olhos.

Aquele líquido doce a deixava anestesiada. Quando ergueu os olhos novamente viu um homem digitando freneticamente.

As mãos eram ágeis e os olhos vidrados. Seus cabelos castanhos possuíam alguns fios brancos. Linhas de expressão profundas nos olhos. Aparentava uns quarenta anos. Entretanto, encarando de perto, apenas um homem de trinta anos muito cansado. 

Sorriu de canto. A beleza do trabalho. Como as pessoas respiravam e exalavam saber, cultura, informação e determinação. O amor às suas profissões. Era algo que a entorpecia.

Perto da janela, um jovem por volta dos dezessete anos, estava lendo um livro de maneira concentrada. Um casal conversava gesticulando e fazendo piadas. Dois amigos jogavam xadrez enquanto falavam sobre a relação de votos da última eleição.

Era tudo cinza com as cores das pessoas. Era tudo frio com o calor humano. Era absolutamente tudo úmido com vidas secas.

Era São Paulo em mais um dia. Em mais uma mistura de cores, sabores, texturas e pensamentos. Ideologias, classes e utopias.

Cada um dentro de sua própria forma anarquista de viver.

O barulho irritante do sino tocou de novo.

Um rapaz de cabelos cacheados negros adentrou. Seus olhos eram escuros e cingia um moletom azul marinho, calça jeans e chinelos.

— Você já está molhada para mim? — Ele questionou malicioso e alto a fazendo revirar os olhos. Já não estava chamando atenção o suficiente sem ele? — Piadas a parte, você está uma catástrofe!

Angela levantou-se em um pulo.

— Você tem inveja do meu brilho próprio. — Ela respondeu de nariz em pé o fazendo rir.

— E você do meu carro quitado! — Ele disse balançando as chaves em seu rosto.

Ela o ignorou, deixou o dinheiro em cima da mesa em baixo da xícara vazia e seguiu até a porta. Encarou as gotículas.

— Precisa de ajuda? — Miguel perguntou irônico. — É só girar esse ferro brilhante, frio e redondo!

— Você acha que as represas voltam a encher agora? — Ela perguntou pensativa.
Miguel deu de ombros.

— Eu não sei. — Ele respondeu ficando com vergonha de estar parado na entrada do lugar.

— Lembra-se de quando tínhamos enchentes? — Ela perguntou animada quando recordara de um passado tão longínquo para ela e tão recente para o tempo.

— Sim, Angela. Eu daqui a pouco vou ter que tomar banho com Soda se a água não voltar então sim, eu me preocupo com a falta de água também. Agora pode, por favor, liberar a passagem? — Ele questionou puxando carinhosamente o cabelo loiro e ondulado dela.

— Ah, certo! — Ela disse dando um pulo para fora. — Onde vamos agora? — Ela questionou.

— Para o carro, te levar para casa, fazer você tirar essas roupas molhadas (na minha frente de preferência) e pedir minha pizza maravilha. — Ele disse colocando o capuz.

— Você é tão prático com tudo! Onde está seu sentimentalismo? — Ela questionou quando ele pegou em seus ombros.

— Se perdeu junto com a minha naturalidade. — Ele respondeu sarcástico.

— O que você quer dizer? — Angela perguntou encarando a chuva.

— Eu sou paulistano, Angelita! — Ele respondeu como se estivesse falando com uma criança. — Faço parte do sistema que engloba essa capital! — Ele disse olhando para o alto e a apertando mais. — Agora corra, estou com fome! — Disse a levando consigo para a floresta chuvosa de concreto. 


                                                                                                     — Nayara Gilio Poloni

5 comentários:

  1. Nayara, amei seu espaço :) Parabéns!

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  2. Um jeito muito simples e fácil de se explicar algo tão sério e complexo como nossa forma fria de se viver. Meus parabéns!

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  3. Nayara Gilio, parabéns! Tenho muito orgulho da mulher maravilhosa e inteligente que é! Cultura, muitos têm; inteligência, todos. Mas poucos têm o dom de transformar o cotidiano, a reflexão e os sentimentos em arte. A literatura é o equilíbrio do homem, então sua humanização.

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