Qual não foi sua surpresa quando o ônibus quebrou em meio
à marginal tempestuosa? Não bastasse a chuva também havia o fator tempo. Duas
horas para que a ajuda chegasse, mais uma hora para que outro ônibus
conseguisse chegar ali em meio ao trânsito, e já era 20h.
O calor que se formava dentro do veículo começou a fazer
com que seus óculos embaçassem e então, o cachecol pareceu sufocá-la e as botas
a esquentarem. Descruzou os braços e abriu a bolsa em busca do aparelho móvel
que tanto amava.
Ao segundo toque foi atendida.
— Diga flor da minha noite! — Respondeu uma voz masculina.
— Ei, então... — Começou tentando encontrar a fala. —
Fiquei ilhada dentro de um ônibus aqui na marginal... Que tal me encontrar
no Café das 3 a.m? Depois você poderia me dar carona para a sua
casa para assistirmos o filme que você quiser! — Respondeu cruzando os dedos.
O outro lado da linha ficou mudo por alguns longos
segundos e a garota realmente achou que ele tivesse desligado quando foi
respondida.
— Tudo bem, o que eu ganho com isso? — Ele perguntou
sério.
— Como assim? — Ela questionou descrente.
— Angela, minha querida, você vai me tirar de casa em
meio a essa chuva e trânsito para te buscar em um café a três bairros do meu.
Eu quero saber: o que eu vou ganhar com isso? — Ele voltou a interpelar a
deixando nervosa.
— Humn... Um café? — Perguntou rindo sem graça.
— Pense grande, Angelita! — Ele disse preguiçoso. Ela até
podia visualizá-lo deitado em seu sofá com as pernas cruzadas para cima e
enrolando o fio do telefone nos dedos enquanto encarava o teto.
— Eu te pago uma pizza família de frango com catupiry. —
Ela disse o fazendo suspirar do outro lado.
— Eu detesto esse lance de você me conhecer tão bem! Faz
com que todo o encanto da barganha seja muito simples para você! Eu deveria
trabalhar com sexo daqui para frente. — Ele disse refletindo.
— Miguel! — Ela chamou ficando vermelha e ele só bufou do
outro lado.
— Ok, ok! — Ele disse ficando em pé. — Chego em menos de
uma hora.
Ela guardou o telefone pensando no tamanho atrevimento do
rapaz e seguiu rumo à rua sentindo o frio cortante cruzar seu rosto e a água
alcançar seus tornozelos. Choramingou contrariada.
Minhas botas novas!
Correu entre os carros fazendo com que sua roupa ficasse
mais molhada e, ao chegar à calçada, já estava em estado deplorável.
Andou mais três quarteirões até alcançar o estabelecimento
em tons de terra. Ao adentrar, o barulho irritante do sino chamou atenção para
si. O atendente quando a viu torceu o nariz.
Considerou aquilo uma tremenda falta de respeito! Havia
simpatizado muito mais com a garotinha que estava rindo dela e sorriu de volta.
Sentou-se em uma poltrona de couro fazendo um barulho
escandaloso e quis se enterrar viva.
Uma moça chegou ao seu lado com um sorriso forçado ao
notar seu cabelo pingando no tapete de camurça e sua roupa encharcada grudando
no assento.
— Deseja alguma coisa, senhora? — Questionou com o batom
vermelho desbotado.
Minha dignidade se ainda estiver por aí.
— Um chocolate quente com marshmallows. Muitos
marshmallows. Eu pago pelos marshmallows extras. — Ela disse rápido e sorrindo
amarelo. Tinha repetido tanto a mesma palavra que ela até se tornara engraçada.
A atendente se retirou pensando em como ela era louca e
Angela pôde relaxar.
A chuva batia com força na vidraça da loja. Granizo.
Aquelas pequenas pedrinhas de gelo deixavam o ar ainda mais frio e gostoso na
concepção dela.
— Mamãe! O Ted não quer comer! — Uma menininha disse
tentando que um pãozinho de queijo atravessasse a boca do ursinho de pelúcia em
suas mãos.
— Por que o Ted não come, Amanda... Agora pare de brincar
com a comida e me deixe pensar! — A mulher respondeu séria digitando rápido em
sua calculadora.
— Sim, mamãe... — A menina respondeu cabisbaixa e Angela
a encarou com pena.
Crianças querendo ser crianças e adultos sendo adultos.
Aquilo a irritava. Colocar uma criança em uma rotina, com responsabilidades e
dentro de um sistema racional desde jovem não era errôneo? Parte dela gritava
que sim. Enquanto uma parte mais lógica e fria dizia que não.
Seu chocolate quente chegou. Agradeceu a mulher a sua
frente e bebericou com cuidado. Fechou os olhos.
Aquele líquido doce a deixava anestesiada. Quando ergueu
os olhos novamente viu um homem digitando freneticamente.
As mãos eram ágeis e os olhos vidrados. Seus cabelos
castanhos possuíam alguns fios brancos. Linhas de expressão profundas nos
olhos. Aparentava uns quarenta anos. Entretanto, encarando de perto,
apenas um homem de trinta anos muito cansado.
Sorriu de canto. A beleza do trabalho. Como as pessoas
respiravam e exalavam saber, cultura, informação e determinação. O amor às suas
profissões. Era algo que a entorpecia.
Perto da janela, um jovem por volta dos dezessete anos, estava
lendo um livro de maneira concentrada. Um casal conversava gesticulando e
fazendo piadas. Dois amigos jogavam xadrez enquanto falavam sobre a relação de
votos da última eleição.
Era tudo cinza com as cores das pessoas. Era tudo frio
com o calor humano. Era absolutamente tudo úmido com vidas secas.
Era São Paulo em mais um dia. Em mais uma mistura de
cores, sabores, texturas e pensamentos. Ideologias, classes e utopias.
Cada um dentro de sua própria forma anarquista de viver.
O barulho irritante do sino tocou de novo.
Um rapaz de cabelos cacheados negros adentrou. Seus olhos
eram escuros e cingia um moletom azul marinho, calça jeans e chinelos.
— Você já está molhada para mim? — Ele questionou
malicioso e alto a fazendo revirar os olhos. Já não estava chamando atenção o
suficiente sem ele? — Piadas a parte, você está uma catástrofe!
Angela levantou-se em um pulo.
— Você tem inveja do meu brilho próprio. — Ela respondeu
de nariz em pé o fazendo rir.
— E você do meu carro quitado! — Ele disse balançando as
chaves em seu rosto.
Ela o ignorou, deixou o dinheiro em cima da mesa em baixo
da xícara vazia e seguiu até a porta. Encarou as gotículas.
— Precisa de ajuda? — Miguel perguntou irônico. — É só
girar esse ferro brilhante, frio e redondo!
— Você acha que as represas voltam a encher agora? — Ela
perguntou pensativa.
Miguel deu de ombros.
— Eu não sei. — Ele respondeu ficando com vergonha de
estar parado na entrada do lugar.
— Lembra-se de quando tínhamos enchentes? — Ela perguntou
animada quando recordara de um passado tão longínquo para ela e tão recente
para o tempo.
— Sim, Angela. Eu daqui a pouco vou ter que tomar banho
com Soda se a água não voltar então sim, eu me preocupo com a falta de água
também. Agora pode, por favor, liberar a passagem? — Ele questionou puxando
carinhosamente o cabelo loiro e ondulado dela.
— Ah, certo! — Ela disse dando um pulo para fora. — Onde
vamos agora? — Ela questionou.
— Para o carro, te levar para casa, fazer você tirar
essas roupas molhadas (na minha frente de preferência) e pedir minha pizza
maravilha. — Ele disse colocando o capuz.
— Você é tão prático com tudo! Onde está seu
sentimentalismo? — Ela questionou quando ele pegou em seus ombros.
— Se perdeu junto com a minha naturalidade. — Ele
respondeu sarcástico.
— O que você quer dizer? — Angela perguntou encarando a
chuva.
— Eu sou paulistano, Angelita! — Ele respondeu como se
estivesse falando com uma criança. — Faço parte do sistema que engloba essa
capital! — Ele disse olhando para o alto e a apertando mais. — Agora corra,
estou com fome! — Disse a levando consigo para a floresta chuvosa de concreto.

Nayara, amei seu espaço :) Parabéns!
ResponderExcluirObrigada, Anô! Apareça sempre! ><
ExcluirUm jeito muito simples e fácil de se explicar algo tão sério e complexo como nossa forma fria de se viver. Meus parabéns!
ResponderExcluirAtendendo a todos os públicos, certo? kkk Obrigada!
ExcluirNayara Gilio, parabéns! Tenho muito orgulho da mulher maravilhosa e inteligente que é! Cultura, muitos têm; inteligência, todos. Mas poucos têm o dom de transformar o cotidiano, a reflexão e os sentimentos em arte. A literatura é o equilíbrio do homem, então sua humanização.
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