quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Floricultura



Charles apagou o cigarro no poste formando um símbolo anarquista com as cinzas. Encarou o céu e bufou quando sentiu uma gota cair em sua testa.

   Deixou que o capuz cobrisse os cabelos em tom de areia e enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta azul marinho.

   Todos os dias ele via as mesmas pessoas idiotas voltando do trabalho. Ele via as mesmas lojas, os mesmos cachorros, os mesmos carros e que um raio caísse na cabeça dele caso estivesse mentindo, mas jurava que aquele pombo gordo estava naquele banco fazia umas três semanas.

    Começou a apertar o passo a medida que a chuva foi ficando mais forte. Pisou em uma poça. Merda! Era isso que pensava e que acreditava que sua vida fosse resumida - um monte de merda.

    Estava cansado de andar por todos aqueles lugares iguais quando algo chamou sua atenção. Um pequeno estabelecimento enfeitado com flores aos montes. Piscou duas vezes em confusão. Aquela era a antiga farmácia já falida do bairro.

    Entretanto, aparentemente, aquilo já não era mais uma farmácia e muito menos estava falida. Ou abandonada.

    O letreiro vivo piscava em verde “Jardim do Eden”. Riu de lado com a originalidade e adentrou o recinto com mais curiosidade do que necessidade.

    Ao ouvir o barulho do sino ao entrar logo se arrependeu. Uma moça de longos cabelos escuros estava de costas para o balcão ajeitando alguns vasos na prateleira. Assim que o escutou entrar virou-se assustada revelando seus grandes olhos castanhos e ingênuos. Ao vislumbrá-lo sorriu dócil.

- Posso ajudá-lo? – Ela pediu educada o mirando com devida atenção.

    Ela observou quando ele passou as mãos nos cabelos de maneira nervosa tentando espantar a água e molhando tudo a sua volta. Em como uma gota de sua franja desceu pela sua testa e foi de encontro ao seu nariz milimetricamente perfeito e repousou em seus lábios arroxeados pelo frio. Quando encarou seus olhos verdes precisou se lembrar de respirar e se segurou para não vacilar em seus próprios pés.

    Charles ao ouvir a voz da moça só conseguia pensar em: “Me ajudar? Posso arrumar muitas formas de você me ajudar! Tirar essa minha roupa molhada e me aquecer de maneiras criativas seria uma boa forma de começarmos! Ou você poderia apenas voltar a se virar de costas e eu poderia ficar te admirando desse jeito!”. Pensou divertido até que recobrou a fala.

- Está chovendo e eu pensei que poderia ficar aqui até que a chuva parasse. Incomoda-se? – Ele perguntou tentando reunir toda a sua gentileza.

    A jovem logo ficou vermelha. Que pergunta idiota era aquela? E sentindo-se a pessoa mais mal educada do planeta apenas tentou se consertar agitando as mãos e falando rápido:

- Claro! Fique a vontade! Gosta de flores? – Perguntou ajeitando o avental branco em sua cintura.

    Charles deu de ombros.

- Na verdade me são relevantes, com todo o respeito! – Respondeu se chutando internamente.

- Não me ofende! – Respondeu sincera. – Poucas pessoas possuem o dom de apreciá-las devidamente. – Ela completou apoiando seus cotovelos no balcão.

    Charles a encarou com uma sobrancelha arqueada e sorriu de canto. Havia gostado da garota.

- Pois bem então... Anabel! – Disse lendo o crachá preso a sua camiseta. – Está querendo dizer então que a senhorita possui tal dom?

- Com toda certeza meu bom senhor! – Ela disse devolvendo no mesmo tom.

- Por que? – Ele questionou com a testa franzida demonstrando desafio e ironia.

- Desculpe? – Ela devolveu começando a ficar vermelha.

- Por que acredita possuir tal dom? Por que as aprecia? – Ele devolveu estudando as reações da garota.

- Por elas serem únicas, é claro! – Ela respondeu como se fosse óbvio. – Cada flor possui um significado, uma essência própria. Cada cor, cada espécie... Cada uma delas tem o poder de representar um momento da vida de quem a recebe!

     Charles então voltou a sua atenção a vitrine da loja ficando envergonhado. Não entendia direito o motivo de estar sentindo aquilo, mas sabia que tinha a ver com a resposta da garota.

    Se até flores eram únicas porque sua vida parecia sempre a mesma? Inspirou fundo e analisou o resquício de chuva do lado de fora. O sol já se fazia presente.

    Anabel ao perceber o silêncio do garoto ficara sem jeito e tentou consertar falando a primeira coisa que viera a sua mente.

- Com as flores também foram provadas os princípios genéticos! – Ela disse tentando soar mais leve.

 Charles a encarou achando graça do constrangimento que ele havia gerado perante o constrangimento que ela havia gerado nele. Balançou a cabeça tentando se livrar do pensamento confuso.

- Teoria de Mendel, certo? – Ele interpelou a encarando com afeição. Ela sorriu doce.

- Sim, Mendel...

   Mais um momento de silêncio até que Charles se dirigiu a porta.

- A chuva já passou. – Disse em um tom sério. – Obrigado pela companhia. – E antes que prosseguisse ela o chamou de volta.

- Espere um instante! – Ela disse altiva o fazendo parar no lugar.

    Anabel correu até um arranjo e retirou uma flor laranja dali caminhando em direção ao jovem.

- Essa é uma Astromélia! Ela representa amizade eterna e felicidade plena! Espero que encontre ambos! – Disse lhe entregando o fazendo corar de leve.

    Ele apenas maneou a cabeça de leve e seguiu rumo a porta novamente.

- Não vai nem me dizer seu nome? – Ela questionou esperançosa.

- Amanhã eu conto. – Ele respondeu divertido a olhando de canto.

- Você voltará? – Ela perguntou não contendo o sorriso e ele confirmou.

- Ora! Me deseja amizade eterna e espera que eu não volte? A senhorita é uma jovem muito estranha, Anabel! – Ele respondeu maroto a fazendo derreter por dentro. – Estarei aqui no mesmo horário!

    E sem esperar uma resposta saiu em direção a rua de cheiro úmido e de paisagem já vista.

  Entretanto, dali para frente, ele não se incomodaria mais com as coisas já conhecidas. Ele se aconchegaria no calor de uma rotina.

   Com a mesma pessoa, na mesma loja e no mesmo horário. Todos os dias que se seguiram a partir dali
                  

                                                                                             — Nayara Gilio Poloni

4 comentários:

  1. Nayara, adoro seus contos! Sua maneira doce de descrever a realidade comumente vivida pela sociedade. Bjs.

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  2. Está de parabéns por suas crônicas! Todas muito bem elaboradas e com movimento! Beijos...

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