Clarisse engoliu uma colherada do enorme sunday à sua
frente e encarou o nada. Com frequência ia àquela sorveteria, na parte sul da
cidade, e pedia o de sempre. Sorvete de creme com pedaços de frutas vermelhas e
cobertura de caramelo.
Outra colherada. Bufou desapontada.
Em cada canto da sorveteria branca e vermelha havia
casais. Casais de diversas idades. Entretanto, os que a mais irritava eram os
felizes.
Vocês sabem quais casais! Aqueles casais que se dão
comida na boca em meio a beijos. Aqueles que ficam se encarando com aquele
olhar apaixonado sem dizer uma palavra, como “o olhar diz tudo”. Aqueles que
gostam de deixar claro ao mundo que se amam e estão contentes e te causam
diabetes.
Outra colherada.
Encarou sua camiseta branca e xingou mentalmente, pois havia
derramado calda de caramelo.
— Aqui está sua coca-cola e chantilly extra, senhorita! — Respondeu o garçom, se aproximando
com o pedido. — Gostaria de mais alguma coisa?
Clarisse olhou para o funcionário e seus olhos dilataram.
O rapaz alto de olhos escuros e cabelos negros mantinha a barba rala e cingia a
camiseta preta do uniforme, com uma calça jeans escura.
Deve ter ficado olhando para ele com cara de boba por
alguns longos segundos, quando ele quebrou o silêncio.
— Está babando? — Ele questionou segurando a risada e
apertando o bloco e a caneta com força. Clarisse logo levou as mãos à boca, com
olhar assustado. Não estava de boca aberta. Ele alargou o sorriso e apontou
para ela. — Sua camiseta, você se sujou de calda. — Ele disse encarando a mancha
fixamente.
Clarisse se olhou e mordeu a boca.
— Oh! — Ela soltou já se arrependendo. Era tudo o que
conseguia falar? — Eu tinha acabado de ver quando você chegou. — Ela respondeu
tentando consertar a situação embaraçosa que havia se colocado.
Ele a olhava com graça. Como se ela fosse uma criança
boba e engraçada, que estava ali para entretê-lo naquela tarde chata de
trabalho.
— Gostaria de se limpar? — Ele questionou, fazendo-a
franzir o cenho. — Quero dizer... há um
banheiro de funcionários, com uns sabonetes bem melhores do que os de clientes!
— Ele disse apontando para o local.
Clarisse olhou para onde o rapaz apontava. Um corredor
iluminado. Um lindo corredor amigável e iluminado. Não viu mal algum nele e deu
de ombros.
— Se não lhe causar problemas... — Ela disse baixo,
arrancando um sorriso dele.
— Por aqui, por favor! — Ele disse fazendo uma reverência
exagerada que a fez segurar o riso.
O que exatamente ela estava fazendo? Não sabia.
Entretanto, gostava do rumo que as coisas estavam tomando.
Ao chegar ao recinto caminhou até a pia e se apoiou nela,
se olhando no espelho.
Seus cabelos castanhos cacheados estavam soltos batendo
abaixo dos seios. Seus olhos verdes estavam opacos e sua boca vermelha fazia
contraste com sua pele muito branca.
Olhou a mancha marrom em seu colo e bufou.
O rapaz estava apoiado na porta, quando foi surpreendido
com a voz da moça.
— Poderia se virar, por favor? — Ela pediu mirando-o pelo
espelho. — Precisarei tirar a camiseta.
Ele deve ter aberto e fechado a boca umas quatro vezes,
para, depois dos mais longos 7 segundos de sua vida, soltar um “sim, claro” e
virar-se rapidamente, e sem jeito.
Ela estava ensaboando a parte manchada, quando o garçom,
enfim, resolveu falar algo, tentando quebrar o clima constrangedor.
— Quer dizer que a moça vai me trazer para um banheiro,
tirar a blusa e nem me dará a honra de saber seu nome? — Ele questionou
risonho.
Ela mordeu a bochecha.
— Quem me trouxe aqui foi você! — Ela respondeu
enxaguando a parte ensaboada.
— Ora, poupe-me dos detalhes sórdidos! — Ele disse. —
Vamos... só um nome!
A moça então vestiu a blusa e soltou um muxoxo baixo.
— Clarisse. — Ela disse se analisando. — Meu nome é
Clarisse.
— Permissão para virar-me, senhorita Clarisse da baba de
caramelo? — Ele questionou fazendo-a revirar os olhos.
— Permissão mais ou menos concedida, senhor Sou
Engraçado. — Ela respondeu irônica, enquanto ele se virava.
— Isso magoa... Oh! — Ele soltou a exclamação. A face de
Clarisse chegou aos sete tons de vermelho, em apenas três segundos.
Sua camiseta branca estava transparente deixando amostra
seu sutiã branco de bolinhas pretas.
— Acho que era preferível ter deixado a calda... — Ela
disse entortando a boca de forma adorável.
— Eu gostei assim, se quer saber! — Ele respondeu com um
sorriso safado, o que a fez se cobrir instantaneamente, encarando-o brava. —
Ok, desculpe! Piada ruim! — Ele respondeu sem graça e se amaldiçoando. — Espere
um segundo! — Ele falou espontâneo e seguindo até os armários.
Certo,
para onde ele estava indo? — Clarisse pensou assombrada e o rapaz
logo voltou com uma jaqueta de moletom cinza. A menina sorriu.
— Isso é útil! — Ela respondeu segurando a vestimenta com
cuidado e sentindo o perfume fresco que exalava. — Mas não paro de pensar em
algo! — Ela disse colocando a jaqueta.
— E o que seria? — Ele perguntou fazendo um bico
engraçado.
— O senhor me traz para um banheiro, me faz tirar a
blusa, me empresta a sua e nem me dá a honra de saber seu nome? — Ela perguntou
arqueando uma sobrancelha.
— Quem tirou a blusa por pura e espontânea vontade foi
você! — Acusou-a, se divertindo da situação.
— Ora, poupe-me dos
detalhes sórdidos! — Ela respondeu empinando o nariz.
— A mocinha se acha engraçada? — Questionou prensando-a contra
a parede. Suas respirações se cruzaram...
— A graça em pessoa! — Ela respondeu, enquanto sentia o
corpo do rapaz grudado ao seu. Sua respiração vacilou com a proximidade...
— E o que eu ganho por dizer meu nome? — Ele perguntou já
com a testa grudada na dela.
— O prazer de me acompanhar até em casa! — Ela respondeu
com seu hálito de mel. Ele estremeceu...
Logo se afastou, ficando há um metro de distância dela, deixando-a
atordoada.
— Meu nome é Lucius. — Ele respondeu em uma pose
ensaiada. — E saio daqui à uma hora. — Ele respondeu sorrindo torto.
— Será um prazer desfrutar de sua companhia, senhor
Lucius! — Ela disse com uma reverência bailada e seguiu rumo à porta, sendo
seguida.
Ao sentar-se à mesa, o ambiente parecia outro. Mais leve,
quem sabe? Olhou seu sorvete semiderretido. Sua coca-cola fechada e seu chantilly entocado. Torceu o nariz.
— Garçom! — Ela chamou com um ar hilário esperando o
rapaz se aproximar.
— Pensei que havíamos terminado com as formalidades,
senhorita Clarisse! — Ele disse com as mãos em suas costas e curvando-se em
direção a ela, sendo ignorado.
— Poderia trocar os meus dois últimos pedidos por um suco
de limão sem açúcar, por favor?
— Ela perguntou encarando-o com olhos
brilhantes.
Ele franziu o cenho recolhendo os pedidos.
— E por que a mudança repentina? — Perguntou. Ela deu de
ombros.
Olhou em volta e o carinho entre os casais não mais a
enojava ou causava náuseas.
— Acredito que apenas tenha encontrado minha própria
doçura. Não necessitando mais dessas fontes suicidas de açúcar. — Ela respondeu
aérea.
— E o que isso significa? — Ele questionou interessado.
— Significa que eu finalmente me tornei agridoce!
E sem dizer mais nada, ele foi preparar o suco pensando
na garota mais excêntrica e bela que estava usando sua jaqueta, sentada à mesa
sete.
A mesma garota que preencheria seus dias a partir
dali.

Muito fofo e atrevido esse atendente, hein? Escrita maravilhosa, Nayara!
ResponderExcluirkkkkk Obrigada, Cá!
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