quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Agridoce



Clarisse engoliu uma colherada do enorme sunday à sua frente e encarou o nada. Com frequência ia àquela sorveteria, na parte sul da cidade, e pedia o de sempre. Sorvete de creme com pedaços de frutas vermelhas e cobertura de caramelo.

Outra colherada. Bufou desapontada.

Em cada canto da sorveteria branca e vermelha havia casais. Casais de diversas idades. Entretanto, os que a mais irritava eram os felizes.

Vocês sabem quais casais! Aqueles casais que se dão comida na boca em meio a beijos. Aqueles que ficam se encarando com aquele olhar apaixonado sem dizer uma palavra, como “o olhar diz tudo”. Aqueles que gostam de deixar claro ao mundo que se amam e estão contentes e te causam diabetes.

Outra colherada.

Encarou sua camiseta branca e xingou mentalmente, pois havia derramado calda de caramelo.

— Aqui está sua coca-cola e chantilly extra, senhorita! — Respondeu o garçom, se aproximando com o pedido. — Gostaria de mais alguma coisa?

Clarisse olhou para o funcionário e seus olhos dilataram. O rapaz alto de olhos escuros e cabelos negros mantinha a barba rala e cingia a camiseta preta do uniforme, com uma calça jeans escura.

Deve ter ficado olhando para ele com cara de boba por alguns longos segundos, quando ele quebrou o silêncio.

— Está babando? — Ele questionou segurando a risada e apertando o bloco e a caneta com força. Clarisse logo levou as mãos à boca, com olhar assustado. Não estava de boca aberta. Ele alargou o sorriso e apontou para ela. — Sua camiseta, você se sujou de calda. — Ele disse encarando a mancha fixamente.

Clarisse se olhou e mordeu a boca.

— Oh! — Ela soltou já se arrependendo. Era tudo o que conseguia falar? — Eu tinha acabado de ver quando você chegou. — Ela respondeu tentando consertar a situação embaraçosa que havia se colocado.

Ele a olhava com graça. Como se ela fosse uma criança boba e engraçada, que estava ali para entretê-lo naquela tarde chata de trabalho.

— Gostaria de se limpar? — Ele questionou, fazendo-a franzir o cenho. — Quero dizer...  há um banheiro de funcionários, com uns sabonetes bem melhores do que os de clientes! — Ele disse apontando para o local.

Clarisse olhou para onde o rapaz apontava. Um corredor iluminado. Um lindo corredor amigável e iluminado. Não viu mal algum nele e deu de ombros.

— Se não lhe causar problemas... — Ela disse baixo, arrancando um sorriso dele.

— Por aqui, por favor! — Ele disse fazendo uma reverência exagerada que a fez segurar o riso.

O que exatamente ela estava fazendo? Não sabia. Entretanto, gostava do rumo que as coisas estavam tomando.

Ao chegar ao recinto caminhou até a pia e se apoiou nela, se olhando no espelho.

Seus cabelos castanhos cacheados estavam soltos batendo abaixo dos seios. Seus olhos verdes estavam opacos e sua boca vermelha fazia contraste com sua pele muito branca. 
Olhou a mancha marrom em seu colo e bufou.

O rapaz estava apoiado na porta, quando foi surpreendido com a voz da moça.

— Poderia se virar, por favor? — Ela pediu mirando-o pelo espelho. — Precisarei tirar a camiseta.

Ele deve ter aberto e fechado a boca umas quatro vezes, para, depois dos mais longos 7 segundos de sua vida, soltar um “sim, claro” e virar-se rapidamente, e sem jeito.

Ela estava ensaboando a parte manchada, quando o garçom, enfim, resolveu falar algo, tentando quebrar o clima constrangedor.

— Quer dizer que a moça vai me trazer para um banheiro, tirar a blusa e nem me dará a honra de saber seu nome? — Ele questionou risonho.

Ela mordeu a bochecha.

— Quem me trouxe aqui foi você! — Ela respondeu enxaguando a parte ensaboada.

— Ora, poupe-me dos detalhes sórdidos! — Ele disse. — Vamos... só um nome!

A moça então vestiu a blusa e soltou um muxoxo baixo.

— Clarisse. — Ela disse se analisando. — Meu nome é Clarisse.

— Permissão para virar-me, senhorita Clarisse da baba de caramelo? — Ele questionou fazendo-a revirar os olhos.

— Permissão mais ou menos concedida, senhor Sou Engraçado. — Ela respondeu irônica, enquanto ele se virava.

— Isso magoa... Oh! — Ele soltou a exclamação. A face de Clarisse chegou aos sete tons de vermelho, em apenas três segundos.

Sua camiseta branca estava transparente deixando amostra seu sutiã branco de bolinhas pretas.

— Acho que era preferível ter deixado a calda... — Ela disse entortando a boca de forma adorável.

— Eu gostei assim, se quer saber! — Ele respondeu com um sorriso safado, o que a fez se cobrir instantaneamente, encarando-o brava. — Ok, desculpe! Piada ruim! — Ele respondeu sem graça e se amaldiçoando. — Espere um segundo! — Ele falou espontâneo e seguindo até os armários.

Certo, para onde ele estava indo? — Clarisse pensou assombrada e o rapaz logo voltou com uma jaqueta de moletom cinza. A menina sorriu.

— Isso é útil! — Ela respondeu segurando a vestimenta com cuidado e sentindo o perfume fresco que exalava. — Mas não paro de pensar em algo! — Ela disse colocando a jaqueta.

— E o que seria? — Ele perguntou fazendo um bico engraçado.

— O senhor me traz para um banheiro, me faz tirar a blusa, me empresta a sua e nem me dá a honra de saber seu nome? — Ela perguntou arqueando uma sobrancelha.

— Quem tirou a blusa por pura e espontânea vontade foi você! — Acusou-a, se divertindo da situação.

Ora, poupe-me dos detalhes sórdidos! — Ela respondeu empinando o nariz.

— A mocinha se acha engraçada? — Questionou prensando-a contra a parede. Suas respirações se cruzaram...

— A graça em pessoa! — Ela respondeu, enquanto sentia o corpo do rapaz grudado ao seu. Sua respiração vacilou com a proximidade...

— E o que eu ganho por dizer meu nome? — Ele perguntou já com a testa grudada na dela.

— O prazer de me acompanhar até em casa! — Ela respondeu com seu hálito de mel. Ele estremeceu...

Logo se afastou, ficando há um metro de distância dela, deixando-a atordoada.

— Meu nome é Lucius. — Ele respondeu em uma pose ensaiada. — E saio daqui à uma hora. — Ele respondeu sorrindo torto.

— Será um prazer desfrutar de sua companhia, senhor Lucius! — Ela disse com uma reverência bailada e seguiu rumo à porta, sendo seguida.

Ao sentar-se à mesa, o ambiente parecia outro. Mais leve, quem sabe? Olhou seu sorvete semiderretido. Sua coca-cola fechada e seu chantilly entocado. Torceu o nariz.

— Garçom! — Ela chamou com um ar hilário esperando o rapaz se aproximar.

— Pensei que havíamos terminado com as formalidades, senhorita Clarisse! — Ele disse com as mãos em suas costas e curvando-se em direção a ela, sendo ignorado.

— Poderia trocar os meus dois últimos pedidos por um suco de limão sem açúcar, por favor? 
— Ela perguntou encarando-o com olhos brilhantes.

Ele franziu o cenho recolhendo os pedidos.

— E por que a mudança repentina? — Perguntou. Ela deu de ombros.

Olhou em volta e o carinho entre os casais não mais a enojava ou causava náuseas.

— Acredito que apenas tenha encontrado minha própria doçura. Não necessitando mais dessas fontes suicidas de açúcar. — Ela respondeu aérea.

— E o que isso significa? — Ele questionou interessado.

— Significa que eu finalmente me tornei agridoce!

E sem dizer mais nada, ele foi preparar o suco pensando na garota mais excêntrica e bela que estava usando sua jaqueta, sentada à mesa sete.

A mesma garota que preencheria seus dias a partir dali. 
  



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Volte sempre pequeno cupcake