terça-feira, 29 de setembro de 2015

Pesou



Lágrimas, apenas lágrimas. Eu não quero ficar longe de você, não quero, não devo, não me faz bem, machuca. Não posso dizer que sinto saudade, pois assim que nos distanciamos, eu faço de tudo para não pensar em você. Evito seus telefonemas e mensagens. Eu sou um monstro, eu sei. 

Eu faço de tudo para esquecer de como eu gosto de quando você me dá boa noite quatro vezes, em um intervalo de uma hora, simplesmente porque não consegue dormir rápido. Eu tento esquecer em como seu cheiro me acalma, em como eu queria você analisando cada cantinho do meu rosto para ver se eu estou machucada, com alergia atacada ou com um cravo que precisa ser retirado com urgência. Esquecer de como amo seu cafuné e monólogos a respeito da ignorância alheia. De como adoro te encher de beijinhos, da sua cara de brava quando entro na cozinha de cabelo solto, do seu instinto protetor. 

Uma vez você me disse que a faculdade era o lugar para ser quem você quer ser. Onde você teria voz, seria respeitada, mostraria ao mundo ao que veio...

Eu me sinto tão limitada, mamãe... Eu sinto que eu tenho que ser uma idiota, uma marionete fofa e agradável a todo o momento para ser querida. Você me chama de grossa, que eu tenho a voz firme, ideias fortes e ideais muito bonitos. Eu queria poder me sentir livre novamente como você tão bem conhece. 

Eu queria poder falar sem ser repreendida, assim como ouço sem repreender. Eu queria poder arrumar projetos em prol social a todos, não homem mulher, preto e branco, rico e pobre. PARA O SER HUMANO. Queria que as pessoas enxergassem os problemas de hoje como são, como afetam a todas as camadas, e não como este é mal e este é bom. 

Queria cuidar das pessoas por serem pessoas, não porque alguém um dia as dividiu como melhores e piores. 

Eu queria mamãe, que você estivesse ao meu lado, para que eu pudesse me sentir leve como me sinto perto de você, e não pesada como me sinto perto deles. Medindo palavras, ações, pisando em ovos porque eu não penso como eles e entendem errado minhas intenções. 

Eu queria estar na faculdade para crescer mentalmente, me elevar como mulher e pessoa, mas parece que nesse lugar, as pessoas retrocedem. Se limitam ao que livros falam, sem viverem a realidade de fato. 

Mamãe, eu estou indo, por um diploma, pela droga do nome de uma universidade estadual em meu currículo. Mas eu estou presa, mamãe. 

Você entende, não entende? Claro que entende, você me avisou, disse para eu ir para um lugar onde eu seria respeitada, onde minhas opiniões seriam ouvidas e não pré-julgadas. 

Onde eu teria acesso ao mundo real e não ao que essa faculdade se resume como verdade. 

Longe de você, eu me sinto perdida, dói. Me sinto seu rumo, sem saber se apenas isso é o bastante. Quer dizer, é só isso mesmo que a minha vida de jovem adulta deveria se resumir? 

Umas festinhas aos finais de semana, uma prova, um seminário, uns relatórios, livros, compras de supermercado com o seu cartão... Onde está minha responsabilidade financeira? Onde estão as pessoas reais que eu deveria conhecer? 

Estou rodeadas de pessoas que jogam vídeo game o dia inteiro, comem quando querem, dormem quando querem, saem e voltam quando querem, transam quando e da maneira que querem. São adultos, mesmo? Eu estou baseando a minha vida e seguindo com ela junto das destas pessoas? Desta forma? 

Eu não lembro de ter visto alguém que acorde ás 7h e volte ás 18h pra casa, alguém passando necessidades, que tenha metas, horários fixos... Que tipo de adulta eu espero me tornar neste meio? 

Uma adulta alienada, sem voz, com sonhos e ideais reprimidos pelo sistema que esses jovens colocaram como corretos. 

E agora eu apenas me pergunto... Um diploma vale tudo isso? Meu desgaste emocional, minha prisão silenciosa, a indiferença de meus colegas. 

Mamãe, eu estou com medo. Mas se eu voltar agora, do que adiantou meu esforço? Do que adiantou todo o dinheiro investido em mim que você não tinha e deu seu jeitinho de arranjar? 
Do que adiantou eu ficar aqui, se não para realmente conseguir me formar com louvor?

Eu vou conseguir, mamãe, por nós. Porque eu te amo, porque você é tudo o que eu tenho e preciso. 

Ps – durma mais, você anda muito cansada.

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