Lágrimas, apenas lágrimas.
Eu não quero ficar longe de você, não quero, não devo, não me faz bem, machuca.
Não posso dizer que sinto saudade, pois assim que nos distanciamos, eu faço de
tudo para não pensar em você. Evito seus telefonemas e mensagens. Eu sou um
monstro, eu sei.
Eu faço de tudo para esquecer de como eu gosto de
quando você me dá boa noite quatro vezes, em um intervalo de uma hora,
simplesmente porque não consegue dormir rápido. Eu tento esquecer em como seu
cheiro me acalma, em como eu queria você analisando cada cantinho do meu rosto
para ver se eu estou machucada, com alergia atacada ou com um cravo que precisa
ser retirado com urgência. Esquecer de como amo seu cafuné e monólogos a
respeito da ignorância alheia. De como adoro te encher de beijinhos, da sua
cara de brava quando entro na cozinha de cabelo solto, do seu instinto
protetor.
Uma vez você me disse que a faculdade era o lugar
para ser quem você quer ser. Onde você teria voz, seria respeitada, mostraria
ao mundo ao que veio...
Eu me sinto tão limitada, mamãe... Eu sinto que eu
tenho que ser uma idiota, uma marionete fofa e agradável a todo o momento para
ser querida. Você me chama de grossa, que eu tenho a voz firme, ideias fortes e
ideais muito bonitos. Eu queria poder me sentir livre novamente como você tão
bem conhece.
Eu queria poder falar sem ser repreendida, assim
como ouço sem repreender. Eu queria poder arrumar projetos em prol social a
todos, não homem mulher, preto e branco, rico e pobre. PARA O SER HUMANO.
Queria que as pessoas enxergassem os problemas de hoje como são, como afetam a
todas as camadas, e não como este é mal e este é bom.
Queria cuidar das pessoas por serem pessoas, não
porque alguém um dia as dividiu como melhores e piores.
Eu queria mamãe, que você estivesse ao meu lado,
para que eu pudesse me sentir leve como me sinto perto de você, e não pesada
como me sinto perto deles. Medindo palavras, ações, pisando em ovos porque eu
não penso como eles e entendem errado minhas intenções.
Eu queria estar na faculdade para crescer
mentalmente, me elevar como mulher e pessoa, mas parece que nesse lugar, as
pessoas retrocedem. Se limitam ao que livros falam, sem viverem a realidade de
fato.
Mamãe, eu estou indo, por um diploma, pela droga
do nome de uma universidade estadual em meu currículo. Mas eu estou presa,
mamãe.
Você entende, não entende? Claro que entende, você
me avisou, disse para eu ir para um lugar onde eu seria respeitada, onde minhas
opiniões seriam ouvidas e não pré-julgadas.
Onde eu teria acesso ao mundo real
e não ao que essa faculdade se resume como verdade.
Longe de você, eu me sinto perdida, dói. Me sinto
seu rumo, sem saber se apenas isso é o bastante. Quer dizer, é só isso mesmo
que a minha vida de jovem adulta deveria se resumir?
Umas festinhas aos finais
de semana, uma prova, um seminário, uns relatórios, livros, compras de
supermercado com o seu cartão... Onde está minha responsabilidade financeira?
Onde estão as pessoas reais que eu deveria conhecer?
Estou rodeadas de pessoas que jogam vídeo game o
dia inteiro, comem quando querem, dormem quando querem, saem e voltam quando
querem, transam quando e da maneira que querem. São adultos, mesmo? Eu estou
baseando a minha vida e seguindo com ela junto das destas pessoas? Desta forma?
Eu não lembro de ter visto alguém que acorde ás 7h
e volte ás 18h pra casa, alguém passando necessidades, que tenha metas,
horários fixos... Que tipo de adulta eu espero me tornar neste meio?
Uma adulta alienada, sem voz, com sonhos e ideais
reprimidos pelo sistema que esses jovens colocaram como corretos.
E agora eu apenas me pergunto... Um diploma vale
tudo isso? Meu desgaste emocional, minha prisão silenciosa, a indiferença de
meus colegas.
Mamãe, eu estou com medo. Mas se eu voltar agora,
do que adiantou meu esforço? Do que adiantou todo o dinheiro investido em mim
que você não tinha e deu seu jeitinho de arranjar?
Do que adiantou eu ficar
aqui, se não para realmente conseguir me formar com louvor?
Eu vou conseguir, mamãe, por nós. Porque eu te
amo, porque você é tudo o que eu tenho e preciso.
Ps – durma mais, você anda muito cansada.

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